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A programação visual do Livro Dê Asas aos Seus Sonhos: A história de Alberto Santos Dumont
Uma análise da autora/ilustradora, Elisabeth Waugaman, Ph.D.

Por ser tão linda e delicada a programação visual feita pela Adriana Miranda no livro "Dê Asas aos Seus Sonhos", merece uma consideração especial.

Na capa, a designer diminui o material gráfico original para criar o efeito de ver uma fotografia na capa de um álbum. A conexão psicológica com um álbum cria um sentimento de intimidade e curiosidade — o desejo de olhar dentro do livro e ver mais. Para ver a foto com clareza, a pessoa tem que pegar o livro, que é uma inteligente jogada de marketing. A capa de cor verde primavera, um símbolo de novos começos, é usada por todo o livro. Todas as três máquinas voadoras de Alberto estão representadas na capa. Sua última e mais importante inovação em matéria de vôos é seu avião, que está desenhado como o maior dos três aparelhos voadores. O avião parece estar voando para fora da capa em direção ao começo da história.

Na página do título, a designer centraliza a atenção do leitor em sua mais importante criação — seu avião.

A primeira ilustração (pág.5) mostra Alberto lendo entre os pés de café com os grãos maduros cobrindo as plantas. A designer colocou pontos vermelhos em volta dessa "foto", representando os grãos de café que ficam vermelhos quando maduros. As nuvens no canto esquerdo estão em camadas como as velas em um grande navio porque, quando criança, Alberto acreditava que um dia os homens iriam voar pelo céu em barcos assim como as nuvens navegam pelos céus. Na página de texto em frente (4) a designer colocou três grãos de café torrados, sugerindo que vamos seguir um processo completo do começo ao fim, o processo de fazer um sonho se tornar realidade, pouco a pouco, passo a passo. A designer também usa cores diferentes para o texto em Português e em Inglês que realçam ainda mais a aparência colorida das páginas de texto.

Nas págs. 6 e 7, a designer produz o material gráfico para que o olho se concentre no lindo movimento das asas da arara vermelha. Por todo o livro, a designer trabalha o desenho original para trazer as crianças o mais próximo possível da ação.

(pág.8) O desenho em volta dos balões Montgolfier emoldura como uma foto; e os quadrados amarelos nos cantos me fazem lembrar os cantos utilizados para colar fotos num álbum. A silhueta do galo na página oposta (pág.9) é oportuna, não apenas porque o galo está voando no balão Montgolfier, mas também porque o galo é um símbolo da França, onde os vôos de Alberto aconteceram. A designer introduz o tema do caminho nessa página de texto com linhas múltiplas de caminho, algumas das quais não chegam a lugar nenhum ou sem saída, sugerindo que encontrar o caminho para seguir os seus sonhos talvez não seja fácil. Talvez tenhamos que tentar mais do que uma vez. Nenhum dos caminhos representados no livro está completo, pois a criança está seguindo os caminhos para seus sonhos ainda incompletos; e também porque a estória de voar ainda está sendo escrita. Essa é uma estória sobre sonhar, sobre se tornar; e os caminhos não terminados reforçam essa imagem durante todo o livro.

(pág.10) A designer produziu o desenho original para que o leitor pusesse atenção nas mãos de Alberto. Ela pegou a complicada máquina de costura e a colocou na pagina de texto (pág.9), de modo a concentrar a atenção da criança na máquina de costura, que teve um papel importante na criação das máquinas voadoras de Alberto. (Seus balões e aviões eram feitos de seda. Os primeiros aviões tinham tecido costurados por cima das asas de armação de madeira) O caminho de diamantes é um ponto muito familiar para as costureiras. A cor da página reflete a das mãos de Alberto porque esta página é sobre sua natureza, seu amor por consertar as coisas.

(págs.12-13) Essa é uma pintura baseada na descrição do que Alberto viu durante seu primeiro vôo, que foi feito em um balão alugado. Eles subiram até estarem totalmente cobertos pelas nuvens. De repente o sol despontou por cima delas, enchendo as nuvens com raios brilhantes de sol, que criaram múltiplos arco-íris e um gigantesco reflexo do balão, do cesto e até mesmo dos próprios passageiros. Essa descrição foi tão mágica, que eu resolvi que os livros precisam de ilustrações pintadas. Não havia como captar isso em uma fotografia. Eu queria compartilhar com as crianças um pouco da mágica desse momento, para despertar as crianças para as maravilhas, belezas e aventuras possíveis no mundo real. A designer produziu radicalmente o desenho original para colocar a criança no meio da experiência com uma visão muito diferente da da artista que coloca o balão e o reflexo a uma longa distância. Acho que o desejo da designer em colocar a criança diretamente na experiência é melhor, porque faz com que a experiência seja mais intensa e mais pessoal. Fiquei muito satisfeita ao escutar de um piloto que me disse que essa descrição de arco-íris é bastante realista.

(pág.15) Essa pintura também foi baseada no que Alberto viu durante o seu primeiro vôo num balão alugado. Eles subiram tão alto que Alberto viu cristais de gelo se formar nos seus óculos, no cesto, nas cordas e no balão. Tomei uma pequena licença artística e aumentei os cristais para mostrar como eles são lindos. A designer emoldurou o desenho com uma corda azul. A corda azul reflete a corda no desenho assim como a estampa de diamantes repete aquela do caminho em volta da máquina de costura, nos lembrando, subliminarmente, que o balão está costurado todo junto, assim como os sonhos são criados pedaço por pedaço, pouco a pouco. Ela realçou a figura com cantos como os cantos usados antigamente para colar figuras em álbuns. Esse é um efeito bem interessante que reforça o sentimento íntimo de olhar para um álbum enquanto seguramos o livro em nossas mãos. A designer repete o álbum imaginário na página de texto (pág.14) colocando cantos amarelos em volta do texto em inglês.

(pág.17) A figura do balão a noite pode lembrar alguns leitores de uma estória de infância muito popular que envolve outro vôo a noite, sobre outra capital européia, de um menino em uma nave. Você se lembra dessa imagem? É aquela do Peter Pan que voou com um navio pelo ar — assim como Alberto. Estou convencida que Barrie foi profundamente influenciado por Alberto quando ele criou o Peter Pan. As datas se encaixam; e as aventuras de Alberto estiveram por todas as capas dos jornais europeus durante anos. Na página anterior (pág.16), a designer usa um amarelo de brilho forte com um caminho vermelho brilhante — as cores são um aviso, uma previsão, do que está para acontecer. Esse é o primeiro uso de previsão no desenho.

(págs. 18-19) Alberto não notou que uma tempestade estava se aproximando. Outra vez, a designer trabalhou rigorosamente no desenho original para pôr a criança tão próxima do relâmpago quanto possível, aumentando a intensidade da experiência.

(págs. 22-23) Mais uma vez, a designer trabalha intensamente na ilustração original de forma que somente uma parte do balão está visível, permitindo que a imaginação da criança crie o resto. Ela faz o mesmo com o Balão de Alberto o que faz com que ele pareça ser ainda menor. Ao cortar parte dos balões, ela cria o sentimento que eles estão flutuando para fora da página. Ela adicionou pontos coloridos na parte de baixo da página por causa da pergunta que o texto coloca: Alberto preferia seu céu amarelo dourado, qual cor de céu você gosta mais? Crianças pequenas podem escolher um dos pontos; e os pontos podem levar para mais discussão sobre as cores do céu.

(págs. 24-25) Para combater a pressão, ansiedade e o perigo que tinha no seu trabalho, Alberto desenvolveu um estranho senso de humor que incluía pendurar sua mesa de jantar no teto, para que ele pudesse compartilhar um pouco de diversão com seus amigos sem expô-los a qualquer perigo. A mesa de jantar suspensa testemunha a criatividade de Alberto, sua habilidade de pensar fora dos padrões e sua "joie de vivre" . Todos queriam um convite para uma de suas festas de jantar aéreas. A designer usa um fundo azul claro para a página de texto (pág.24) da sua ilustração que revela muito sobre a natureza de Alberto. Encontraremos esse delicado azul por todo o livro, quando questões sobre espiritualidade aparecerem. O céu azul claro com seus caminhos solares amarelos também reflete onde o Alberto gostaria de estar.

(págs. 26-27) A designer carrega as folhas de uma árvore gigante sobre a página de texto criando um sentimento de que a árvore está rodeando, abraçando tudo em sua volta. Existem vários caminhos pontilhados. O mais largo é apenas um pequeno fragmento, como a pequena pergunta não respondida, "Ele pode voar?"

(págs. 28-29) A designer faz uma fotomontagem da ascensão do primeiro avião de Alberto, usando uma linha ondulada em volta da figura que prevê o que vai acontecer com a aeronave — ela enrola e dobra ao meio. Representada pelo fundo da aeronave estar tão próximo ao texto na página anterior (pág.28) também sugere que o vôo não está realmente tão alto como deveria — que é o caso na página seguinte.

(p. 30-31) A designer repete as linhas onduladas, incertas que refletem a aeronave dobrada. O caminho na próxima página é a mesma linha ondulada, refletindo as palavras no texto, "Conquistar um sonho tem seus altos e baixos." O caminho pode não ser suave e fácil. Talvez seja turbulento e difícil, com altos e baixos — literalmente e figurativamente.

(págs. 32-33) A brincadeira com as cores nessas páginas não é apenas pura diversão estranha. A designer intensifica a cor do vestido da princesa e o azul das roupas dos trabalhadores — para que se tenha uma justaposição de classes com cores que sugere muitas coisas, incluindo o apelo universal de Alberto por todas as classes sociais, seu carinho pelos trabalhadores pobres, e o fato de que os sonhos são para todos nós. Aquele lindo ponto azul claro que quase sai da página, é a cor azul do céu já associada à espiritualidade. Aqui os círculos do céu azul refletem a forma redonda do amuleto de São Benedito, intensificando assim a natureza espiritual da cor.

(págs. 34-35) Por causa da emoção criada ao ver uma aeronave passando pela rua, a designer enche a página com crianças. A designer captou o tema infantil fazendo a página vermelha assim como a primeira página do livro, quando vemos Alberto quando criança. A designer aumentou ainda mais a intensidade do vermelho com três linhas negras, mais uma vez sugerindo a borda de uma foto e os caminhos que devemos seguir para atingir nossos sonhos. Deixando as linhas incompletas, ela cria um sentido de algo não terminado, um sentido de que as coisas ainda estão para serem feitas.

(págs. 36-37) A designer estacionou a aeronave em frente a sua casa nesse momento do álbum. A cor na página oposta é quase a mesma da usada com a princesa. É um comentário sutil sobre a própria riqueza de Alberto, que o permitiu fazer tudo que ele fez. Ao contrario da nobreza, entretanto, Alberto deu tudo o que tinha — tanto suas invenções quanto seus prêmios em dinheiro de alto valor.

(págs. 38-39) A designer também faz da entrada de Alberto no Maxim's como se fosse uma foto, de um álbum ou de um jornal. Essa moldura repete a moldura da porta aberta, que também emoldura a aeronave. A moldura na página seguinte é muito elegante, como na página 38, o que reflete o ambiente elegante das "fotos".

(págs. 42-43) A designer ajusta o desenho para chamar a atenção para Alberto. A página de texto (pág.42) repete o verde da grama com uma linha azul, sugerindo o caminho que Alberto terá que percorrer pelo céu. O verde intenso, como a capa, é um verde intenso de primavera que sugere novos começos. Com suas aeronaves, Alberto eventualmente consegue o primeiro vôo no sentido moderno da palavra — com um horário e um itinerário. Ele também provou que aeronaves podem ser um meio prático de voar. (Alberto voava dirigíveis com sucesso antes do Zeppelin.)

(págs. 44-45) A designer aumenta o significado da queda de Alberto colocando ao lado do marrom dos edifícios (pág. 45) o azul do céu (pág. 44). Ela deu a colisão uma apresentação de "foto de oportunidade" de jornal. Ela também usa um azul intenso quando o primeiro avião do Alberto se choca.

(págs. 46-47) A designer colocou a ilustração da Notre Dame no mesmo fundo azul claro utilizado para os temas espirituais, que aqui atingem sua cúspide. Essa cor não é mais repetida no texto. Ela é usada de novo na linha do tempo da vida de Alberto. A designer continua a brincar com tipos diferentes de bordas e caminhos, aqui, e nas páginas 48-49. A cor laranja que ela escolhe para o texto em frente ao Arco do Triunfo, tem a cor das folhas do outono. Laranja é também uma cor que simboliza o sucesso e a espiritualidade.

Curiosamente, a cor que a designer escolhe para a vista aérea de Paris e da Torre Eiffel (págs. 50-51) é a mesma cor que ela usa para a Princesa Isabel (pág. 32) que lembra o Imperador Napoleão e o passado imperial de Paris. A cor conecta Paris à nobreza imperial sugerindo que a cidade e seu símbolo, a Torre Eiffel, estão entre as grandes cidades e símbolos da história. Ela aumenta essa impressão criando uma moldura dourada em camadas múltiplas em volta da foto da Torre Eiffel.

Na página 52, com Alberto passando o mais próximo possível da Torre Eiffel para economizar tempo, a designer usa um fundo azul como o do Rio Sena, sugerindo que Alberto poderia ter ido na direção errada, para baixo ao invés de para cima. Esse momento é uma ilustração clássica de como nós geralmente tomamos decisões difíceis com base na nossa corrida contra o tempo. As olhadas de Alberto no seu relógio Cartier (pág.53), criaram uma nova moda para homens de falar as horas, assim como trouxe um novo ritmo de vida para o começo do século vinte, quando o tempo passou a não ser mais apenas medido em horas, ou minutos, mas em segundos. O trilho da página 52 é tão fraco que é quase invisível; quando Alberto quase perde seu caminho, ele escapa por pouco da morte.

(pág. 54) A designer dimensionou a pintura para perto para chamar a atenção no rosto preocupado de Alberto e nos parisienses horrorizados em baixo da torre na hora em que ele passa a metros da torre.

(pág. 55) Essas duas ilustrações contrastam o tema "em cima e em baixo" que a designer tenta captar no livro. A designer fez outra "foto de oportunidade" de jornal da figura e pôs uma linha quebrada pontilhada em volta dele. Será que o Alberto será capaz de conectar os pontos e fazer uma linha reta até chegar ao final e ao prêmio?

(pág. 56) A medida que Alberto contorna triunfantemente ao redor da torre, a designer dimensiona rigorosamente a pintura outra vez para chamar a atenção nos raios de sol rompendo pelas nuvens, um símbolo de triunfo sobre adversidade. Para a página de texto, ela escolheu outra vez um verde primavera, a cor da esperança e renascimento; esse vôo foi o primeiro vôo no sentido moderno da palavra (com um horário programado e um itinerário). Esse vôo, que ganhou o Prêmio Deutsch, previu uma mudança na viagem que mudaria para sempre o mundo em que vivemos.

(págs. 58-59) O triunfo de Alberto é reconhecido com uma estátua de Ícaro, um símbolo para muitos dos primeiros aviadores. O símbolo é especialmente poderoso porque muitos desses primeiros aviadores perderam suas vidas tentando voar. Alberto também escapou da morte por um triz em várias ocasiões. O monumento o descreve como o primeiro "capitão dos céus". O texto na página em frente une o verde escuro da terra com um lindo caminho azul do céu.

(pág. 63) Com o 14 bis, pelo qual Alberto ganha o Prêmio Archdeacon por ser o primeiro mais pesado que o ar na Europa, a designer envolve a figura com o desenho de um zíper porque esse prêmio "zipou" a pergunta de quem voou primeiro na Europa. O desenho do zíper é também uma sublime resposta para todos os caminhos pontilhados e alinhados pelo livro, sugerindo que Alberto conectou os pontos e "zipou" a solução.

(pág. 64) A última máquina voadora de Alberto, a "Demoiselle," a primeira aeronave ultraleve, é representada no pôr do sol, no final do dia e da história. Mas é um pôr do sol colorido, ilustrando a beleza da natureza que Alberto tanto apreciava. O avião de Alberto paira sobre a terra e o mar, montanhas e vales, florestas e campos, para mostrar que viajar por todo o mundo mudou para sempre graças à invenção de voar. A página de texto (pág. 65) emprega mais uma vez o verde primavera do renascimento e esperança, utilizadas na capa quando Alberto deu a volta na Torre Eiffel em sua aeronave. (pág. 56) O caminho laranja (pág. 65) termina em cada ponta com um quadrado maior, mas permanece uma linha incompleta porque essa é uma história que continua a ser escrita, um caminho que continua a ser viajado, assim como os vôos continuam a se desenvolver e como cada leitor seguem seus sonhos.

A biografia ao final do livro é feita com uma moldura verde primavera brilhante, outra vez usando a cor da esperança e do renascimento. O texto está impresso em um fundo laranja. Laranja é uma cor interessante porque é associada tanto com a paixão como com a natureza divina do homem. Alberto tinha muita paixão por voar, e ele conseguiu o que as pessoas pensavam que mortais nunca seriam capazes de fazer. Graças aos vôos, a humanidade entrou no reino dos deuses.

A linha do tempo é como um desenho de criança com o céu azul em cima e o verde da terra em baixo. Os dois são ligados com pela própria linha do tempo.

Agradeço a Adriana Miranda efusivamente pelos seus desenhos especiais, lindos e criativos para "Dê Asas aos Seus Sonhos".

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